PÃlulas que matam
Mais de dois milhões de brasileiras já usaram inibidores de apetite à base de anfetamina. Uma nova droga, ainda mais viciante, já chegou ao paÃs.
A droga preferida pelas brasileiras vem da farmácia do bairro -e seu efeito pode ser avassalador. Os inibidores de apetite à base de anfetamina prometem perda de peso rápida e sem sacrifÃcios. A obsessão pela magreza e a facilidade em conseguir uma receita médica fazem o Brasil liderar um ranking assustador: o de campeão mundial no consumo da substância. Os Estados Unidos ocupam o segundo lugar, mas as americanas descobriram uma droga ainda mais potente. Trata-se de crystal meth, uma
variante da anfetamina altamente viciante. A novidade começa a se espalhar pelo mundo.O Brasil não está fora dessa.
Juliana tinha 15 anos quando tomou suas primeiras cápsulas de emagrecimento. Foi levada pela mãe a um endocrinologista conhecido da famÃlia. Em seis meses, perdeu dez quilos. Era o que desejava. Mas, ao parar o tratamento, que durou pouco mais de um ano, voltou a engordar. Recorreu de novo à medicação e assim foi por anos: sempre que ganhava peso, se valia das pÃlulas. Com o tempo, as doses e a freqüência com que tomava o remédio foram aumentando -Juliana chegou a esvaziar uma caixa com 18 pÃlulas em um dia e meio, o equivalente à ingestão de uma cápsula a cada meia hora. Em dezembro do ano passado, depois de crises de ansiedade, internações em clÃnicas de desintoxicação e uma convulsão por acúmulo de anfetamina, sofreu uma parada cardiorrespiratória e não resistiu. Tinha 30 anos.
O caso de Juliana é extremo, mas não raro. Os remédios usados para emagrecimento já entraram para o universo feminino, transformando o Brasil em campeão mundial no consumo dessas substâncias -drogas sintéticas causadoras de dependência, insônia, irritabilidade, taquicardia e hipertensão arterial, além de estar relacionadas à incidência de depressão, crises de ansiedade e pânico. Mais de dois milhões de mulheres já as experimentaram, e algumas estão ficando viciadas.
A Organização das Nações Unidas divulgou relatório mostrando que o consumo das pÃlulas anfetamÃnicas aumentou mais de 250% entre 2002 e 2004, no Brasil. “São mais de 38 milhões de pessoas acima do peso querendo emagrecer”, diz o psiquiatra André Malbergier. O problema, segundo ele, é que muitos médicos receitam inibidores de apetite à base de anfetamina sem pedir exames mais profundos e também sem avaliar atentamente se os remédios são indicados para o paciente. “Alguns profissionais fazem uma prescrição indiscriminada. Infelizmente, não há um controle sobre os médicos, muitas vezes movidos por falta de informação ou por interesse em manter seus consultórios lotados.”
O pior é que o consumo só cresce -e, muitas vezes, de forma descontrolada. Comprar inibidores de apetite nunca foi problema, embora esse tipo de medicamento só possa ser obtido com receita médica.
A casos de câncer na glândula tireóide, que a obriga a interromper definitivamente o consumo de remédios para emagrecer.
Temor americano
Os Estados Unidos seguem em segundo lugar no ranking mundial de consumo de pÃlulas anfetamÃnicas. Mas uma nova droga vem viciando milhões de americanas. Crystal meth, também conhecida como ice, é uma metanfetamina -uma variante da anfetamina com efeitos quÃmicos mais fortes. Essa droga oferece, além de perda de peso de até dois quilos em um único fim de semana, energia suficiente para ficar acordada (e esperta) durante dias. Além disso, é barata e pode ser encontrada em pó, tablete ou cristais.
Falando assim até parece que vale a pena experimentá-la, mas seus efeitos colaterais são destruidores: problemas respiratórios, batimentos cardÃacos irregulares, danos permanentes à memória, colapso vascular e morte. Os ingredientes usados na produção de meth incluem substâncias tão tóxicas que podem destruir o cérebro.
A meth invadiu os Estados Unidos, substituindo a cocaÃna como a droga que mais preocupa as autoridades locais. Entrou pelo oeste do paÃs, mas já está se difundindo para todos os cantos, inclusive na Europa e no Brasil. “A meth já circula nas boates gays de São Paulo e do Rio, e tem gente que está se tornando dependente”, afirma um empresário que prefere não revelar a sua identidade.
Os relatos das mulheres que já consumiram a nova droga são assustadores, como o da americana xxx, de 23 anos, que passou de universitária a trabalhadora sexual para poder pagar o vÃcio. “Sempre quis ser magra. Primeiro usei pÃlulas para emagrecer. Depois experimentei meth.Sabia que era a melhor droga para perder peso.”
Da experiência ao vÃcio foi um pulo. Filha de pai executivo e mãe professora, xxx abandonou a famÃlia e perdeu anos de estudo. Além disso, o consumo de meth interrompeu sua menstruação e fez com que seus dentes perdessem o esmalte. “Fiquei horrÃvel”, diz. Mas não foi a aparência que fez xxx perceber que estava indo de mal a pior. “Uma amiga próxima morreu em uma balada, de overdose. Foi aà que me dei conta do que estava fazendo. Eu também ia morrer. Fiquei apavorada e pedi ajuda aos meus pais, que me acolheram. Agora tento recuperar o tempo perdido.”
